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Pandemia aprofunda desigualdades na educação

Pandemia aprofunda desigualdades na educação

No Paraná, organizações do terceiro setor atuam para promover a equidade no ensino e reduzir a disparidade 

Em março, a pandemia de covid-19 completou um ano desde a declaração oficial pela Organização Mundial da Saúde (OMS), com diversos países lutando contra a doença por meio de medidas como distanciamento e isolamento para conter a doença. O efeito dessas medidas sobre a educação foi grande: escolas fechadas, estudantes sem ferramentas para acessar as aulas virtuais, professores que precisaram adaptar conteúdos para o aprendizado online — além de diversos impactos indiretos sobre a vida de alunos, familiares e educadores. 

Especialista regional de educação para América Latina do Unicef, Ruth Custode afirmou que as crianças e adolescentes da América Latina e Caribe foram as mais afetadas pelo fechamento de escolas, em entrevista ao jornal Valor Econômico. Somente no Brasil — um dos países onde as escolas ficaram fechadas por mais tempo —, os índices de abandono escolar passaram de 1,4 milhão para 5,5 milhões durante a pandemia.

Para superar esses impactos, projetos de educação ao redor do mundo tentam lidar com os desafios provocados pela covid-19.  No Rotary, um dos desafios é cumprir a meta de oferecer educação de qualidade e equitativa para todas as crianças até 2030, proposta como um Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU). “O Rotary tem um histórico de sucesso em lidar com grandes desafios mundiais. Nossos associados, alguns com décadas de experiência no setor educacional, estão tratando as necessidades conforme elas se apresentam”, afirma a instituição.

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O Rotary desenvolve vários projetos educacionais na comunidade paranaense e tem aumentado esforços desde o começo da pandemia para estimular e auxiliar jovens a continuarem seus estudos. Conheça algumas dessas iniciativas:

 

Alfabetização infantil

Criado há cinco anos, o projeto Linha de Leitura tem como objetivo diminuir os números de crianças sem conhecimentos básicos no nível primário. Segundo Celida Helena de Andrade Vieira, coordenadora do projeto, o foco inicial era apenas criar o hábito de ler nas crianças do 3º ao 5º ano do Ensino Fundamental. “Consequentemente, tivemos outros resultados, muito maiores do que esperávamos, e que mudaram nosso objetivo principal. As crianças melhoraram muito no quesito alfabetização e em áreas como história, geografia, entre outras”, explica. Somente na região do município de Pinhais, as crianças participantes do projeto tiveram uma melhora percentual de aproximadamente 2 pontos no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

O Linha de Leitura foi idealizado a partir de um método holandês, em que as crianças são testadas e niveladas de acordo com suas habilidades de leitura. A iniciativa fornece os materiais e agrupa as crianças em duplas com o mesmo livro durante 15 minutos. Em seguida, o desempenho das crianças é avaliado e a professora que aplica o teste determina qual o nível de leitura dos estudantes. São oito níveis e, dependendo do desempenho, as duplas podem ser reajustadas, unindo sempre as crianças que compartilham o mesmo nível. 

“O resultado foi surpreendente porque os alunos têm liberdade de escolher os livros que querem ler. Utilizamos um material lúdico e distribuímos em cestas coloridas de acordo com o nível de leitura”, descreve a coordenadora. Celida também relata que o projeto costuma ser aplicado no início do ano letivo e “permanece na escola para sempre”. 

Desde o início da iniciativa, o projeto Linha de Leitura já foi aplicado em cinco municípios do Paraná — Bocaiúva, Colomba, Curitiba, Pinhais e Ponta Grossa —, com a participação de aproximadamente 6 mil crianças. No momento, as atividades estão paralisadas até que seja possível o retorno em segurança das aulas presenciais nas escolas municipais. “Assim que as aulas voltarem ao normal, estaremos disponíveis para implantação em outras cidades”, afirma Vieira.

 

Acesso à tecnologia

De acordo com o Relatório de 2020 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, cerca de 500 milhões de estudantes não têm acesso ao ensino a distância. Dados da  regional de educação para América Latina do Unicef mostram como a pandemia agravou a situação nos países latinos, em especial para as crianças que estudam em escolas públicas — apenas uma proporção de uma em cada duas crianças (50%) conseguem acompanhar aulas digitais. 

Com o objetivo de transformar essa realidade, os clubes Rotary, Rotaract e Interact da família rotária Curitiba Oeste criaram o projeto “Um celular muda o futuro de um estudante!”. A iniciativa arrecada aparelhos celulares em boas condições e doa para alunos do Colégio Estadual Algacyr Munhoz Maeder, selecionando estudantes que não tenham acesso a recursos tecnológicos. Idealizada pelo Interact Club Curitiba Oeste, a campanha já entregou 13 celulares, arrecadados por meio de campanhas em redes sociais e doações de rotarianos. “Os interactianos viram a necessidade da juventude que não tem acesso [a tecnologia]. Quando fomos entregar esses celulares, a alegria dos alunos e alunas era indescritível. Eles conseguiram se tornar estudantes destaque sem ter isso, imagine onde podem chegar tendo acesso a tecnologia?! Isso nos emocionou demais”, afirma Mariane Ferreira, Governadora Eleita para a gestão 2021-22 e uma das organizadoras do projeto.

Uma dessas estudantes, Amanda** dependia de material impresso para acompanhar os estudos, depois que o único celular da família parou de funcionar. Amanda conseguiu se posicionar como uma das melhores alunas da classe em 2020, apesar da dificuldade de acesso a tecnologia, de enfrentar uma doença — que provocou inchaço e dores nas mãos e nos pés, obrigando Amanda a passar um mês de cama — e da mãe perder o emprego durante a pandemia. Segundo o clube Oeste, ganhar um celular por meio do projeto foi um “prêmio merecido por seu esforço” e irá permitir que a estudante acompanhe as aulas virtuais em 2021.

A equipe de voluntários que arrecadou e organizou as doações foi composta pelo Interact Oeste e pelas rotarianas Mariane Ferreira e Marci Ducat, também associadas a família Rotary Club Curitiba Oeste. Outra ação está sendo planejada, com cinco aparelhos celulares arrecadados até o momento. Associados da família rotária e comunidade em geral podem contribuir, entrando em contato com o Rotary Curitiba Oeste e doando celulares em boas condições de uso.

 

Capacitação de Professores

Orientar e capacitar professores é essencial para aumentar os índices de aprendizado infantil. O Rotary, as Nações Unidas (ONU), a Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e outras organizações estão adotando essa abordagem para ajudar os professores a prepararem aulas que garantam um aprendizado efetivo. “O educador tem o poder de transformação. Investir só em infraestrutura e espaço físico pode não dar resultado nenhum se não houver profissionais treinados e motivados. A valorização dos professores é essencial pra melhorar a educação”, afirma Marcele Minozzo,  diretora de projetos humanitários do Rotary Club Satélite de Curitiba Norte Inspiração. 

“Quando estávamos fundando o nosso clube, imaginando quais seriam nossos valores e  nossos objetivos, fizemos um brainstorming. Pensamos em como nós poderíamos mudar o mundo, e educação foi um tema muito recorrente”, conta Minozzo. No Distrito 4730, o Curitiba Norte Inspiração está elaborando uma iniciativa para capacitar professores de um centro educacional infantil. O projeto tem como objetivo oferecer treinamentos e workshops para os professores, que devem aplicar os aprendizados em sala e escrever um artigo sobre a experiência. Para reconhecer e valorizar os trabalhos realizados em sala de aula, os três artigos com a melhor classificação serão publicados e o selecionado como vencedor receberá um prêmio. 

 

Equipando escolas

Além da valorização e capacitação de professores, o projeto do Rotary Club Curitiba Norte Inspiração solicitou um subsídio global da Fundação Rotária*** para equipar duas escolas com mesas educacionais tecnológicas. “As crianças sentam ao redor da tela interativa e o equipamento tem softwares para ajudar nas disciplinas de português e matemática. Mas, nosso foco principal é a alfabetização [dos alunos]”, explica Marcele. Segundo Minozzo, a ideia de adicionar soluções educacionais ao projeto surgiu a partir do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) abaixo da meta nacional, apresentado por ambas as escolas selecionadas pela iniciativa. “Queremos tentar elevar essas notas”, acrescenta.

As escolas participantes serão a Escola Municipal Professora Joana Raksa e o Centro de Educação Integral (CEI) Expedicionário, integrantes do Núcleo Regional de Educação da Cidade Industrial de Curitiba (CIC).  Para o diretor do CEI Expedicionário, Adriano Borecki, o projeto também traz a possibilidade de aumentar o engajamento da comunidade na educação infantil. De acordo com o diretor, a escola se torna um recurso para crianças e famílias numa realidade socioeconômica vulnerável, em que precisam enfrentar diversos desafios diariamente. “Sobre a alfabetização, é uma série de fatores que faz com que seja [um processo] cada vez mais desafiador. Com  a pandemia, ficou tudo mais difícil pela distância entre criança e escola, é algo muito prejudicial. Mas vejo que a chave para alfabetização é o envolvimento da família. Quando os familiares estão engajados, em contato com o professor e com a criança, têm uma maior participação e [isso] resulta em melhores resultados”, afirma Borecki.

O diretor também acredita que iniciativas como a parceria entre Rotary e escolas públicas fazem a diferença nessas comunidades, e agradece a dedicação e empenho da equipe rotariana. “São pessoas que sabem que a educação é a chave para uma mudança na sociedade. Vejo isso com muito carinho e fico muito feliz de vê-los abraçando uma escola como a nossa, com todas as suas mazelas e dificuldades. Não é uma realidade diferente de outras regiões vulneráveis, mas para as crianças e famílias que convivem com essas questões, a escola é um recurso e esperança de ter um futuro melhor, com ensino e aprendizagem. É algo que, como gestor, vou guardar no coração para sempre e espero que mais atividades como esta sejam desenvolvidas em muitas outras escolas também”, relata.

Outra iniciativa dedicada a equipar escolas, o projeto “Educar” doou mais de 100 obras para o Colégio Estadual Paulina Pacífico Borsari, entre outros materiais escolares. O objetivo foi colaborar com o acervo da biblioteca, que atende aproximadamente 380 estudantes do ensino fundamental, médio e atendimento educacional especializado. A ação foi liderada pelo Rotary Club de Curitiba Guabirotuba e arrecadou cerca de mil reais em livros e materiais escolares.

 

Como ajudar

Saiba como apoiar o Rotary no desenvolvimento de iniciativas educacionais em: rotary.org/pt/our-causes/supporting-education.

CONTATO PARA IMPRENSA:

Raphaella Caçapava - jornalista, diretora de imagem pública do Rotary.  

Telefone: (41) 9 9574-1941

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* O Distrito 4730 é composto pela região de Curitiba e Região Metropolitana, Litoral e Campos Gerais do Estado do Paraná.

** Nome fictício para proteger a identidade da estudante.

*** A Fundação Rotária (TRF) é o  braço filantrópico do Rotary, criado para fins humanitários e educacionais, que lidera esforços de acabar com a pólio e promover a paz. Rotarianos e amigos do Rotary apoiam o trabalho da Fundação através de contribuições voluntárias. A Fundação trabalha para acabar com a pólio, financia projetos através de subsídios e assume outras iniciativas globais.

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